IN MEMORIAM - LAURA CARDOSO

Laura Cardoso construiu uma das carreiras mais longas e respeitadas da dramaturgia brasileira. Sua trajetória começou ainda na década de 1940, nas radionovelas, e ganhou uma dimensão histórica com a chegada da televisão ao Brasil, quando passou a participar dos primeiros teleteatros da TV Tupi. Ao longo das décadas seguintes, trabalhou em praticamente todas as grandes emissoras brasileiras e também construiu uma importante carreira no teatro e no cinema. Na década de 1980, depois de uma passagem pelo teatro, chegou à TV Globo em “Brilhante” e, posteriormente, participou de produções como “Pão Pão, Beijo Beijo” e “Livre para Voar”. Um dos destaques dessa fase foi “Fera Radical”, em 1988, novela em que interpretou Marta, uma mulher que havia criado a protagonista Cláudia, vivida por Malu Mader, e escondia um passado bastante diferente daquele que apresentava.

Os anos 1990, entretanto, representaram uma fase especialmente marcante na carreira de Laura Cardoso. Depois de uma elogiada atuação no teatro, ela voltou a ganhar grande destaque na televisão em “Felicidade”, como a doce Cândida Peixoto, e em “Mundo da Lua”, como a professora aposentada Dona Lila. Foi, porém, em "Mulheres de Areia", em 1993, que Laura Cardoso viveu um dos personagens mais lembrados de sua carreira televisiva. No remake da novela de Ivani Ribeiro, interpretou Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, vividas por Glória Pires. A personagem era uma mulher simples, extremamente ligada às filhas, e demonstrava uma proximidade especial com Raquel, defendendo-a mesmo diante de suas atitudes controversas. 

No ano seguinte, Laura voltou a conquistar o público em "A Viagem", também de Ivani Ribeiro. Como Guiomar, ela participou de uma das histórias mais marcantes da televisão brasileira dos anos 1990. A personagem sofre uma transformação radical depois de ser dominada pelo espírito de Alexandre, vivido por Guilherme Fontes, passando a atormentar as pessoas ao seu redor, especialmente o genro Raul, interpretado por Miguel Falabella. O papel exigia mudanças bruscas de comportamento e uma forte carga dramática, permitindo que Laura explorasse uma faceta mais sombria de sua atuação.

Em 1995, Laura viveu outro personagem de grande importância em sua trajetória: Sinhana, a matriarca da família Coragem, no remake de “Irmãos Coragem”. Forte, simples e extremamente protetora, a personagem exigia uma atuação marcada pela emoção, principalmente nos momentos de sofrimento da família. O trabalho foi amplamente elogiado e rendeu à atriz o Prêmio APCA de Melhor Atriz em Televisão. Depois de “Irmãos Coragem”, Laura ainda passaria por personagens muito diferentes durante a segunda metade da década, como a vigarista Ruth em “Salsa e Merengue”, Yeda em “Meu Bem Querer” e Deolinda em “Vila Madalena”. 

A partir dos anos 2000, Laura Cardoso continuou demonstrando a mesma versatilidade. No cinema, destacou-se em “Através da Janela”, de Tata Amaral, e em “O Outro Lado da Rua”, enquanto na televisão participou de novelas como “A Padroeira”, “Esperança”, “Chocolate com Pimenta”, “Como Uma Onda” e “Caminho das Índias”, em que interpretou a autoritária Laksmi. Em 2012, porém, voltou a conquistar grande repercussão com um personagem que mostrava novamente sua capacidade de interpretar figuras muito diferentes entre si: Doroteia, no remake de “Gabriela”. Conhecida como o “pilar da moral de Ilhéus”, a personagem era uma mulher severa e falsa moralista, que julgava o comportamento dos habitantes da cidade enquanto escondia seus próprios segredos. A atuação de Laura deu à personagem uma mistura de amargura, rigidez e humor, fazendo de Doroteia uma das figuras mais comentadas daquela versão da novela.

Mesmo depois de tantas décadas de carreira, Laura Cardoso continuou encontrando espaço para personagens no cinema, na televisão e no teatro, mantendo-se presente diante de diferentes gerações de espectadores. Trabalhos como “Flor do Caribe”, “Império” e “O Outro Lado do Paraíso”, além de participações no cinema e no teatro, mostraram que sua trajetória estava longe de se resumir aos grandes personagens do passado. Laura atravessou diferentes momentos da dramaturgia brasileira sem ficar presa a uma única imagem: foi mãe, matriarca, mulher humilde, vilã, personagem cômica e figuras de grande complexidade dramática.

Laura Cardoso morreu na noite de 17 de agosto de 2026, em São Paulo, aos 98 anos, encerrando uma das mais longas e importantes trajetórias da história da dramaturgia brasileira. A atriz, que começou no rádio ainda adolescente e chegou à televisão em seus primeiros anos no Brasil, atravessou mais de oito décadas entre o teatro, o cinema e a televisão, deixando uma galeria de personagens que permanece na memória do público. De “Mulheres de Areia” a “A Viagem”, de “Irmãos Coragem” a “Gabriela”, Laura Cardoso construiu uma carreira marcada pela versatilidade e pela capacidade de conferir humanidade mesmo às personagens mais complexas. Sua despedida representa não apenas a perda de uma grande atriz, mas o fim de uma ligação direta com os primeiros capítulos da televisão brasileira.

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