O FILME PERDIDO DE CHAPLIN
Poucos filmes despertam tanta curiosidade entre historiadores do cinema quanto "A Mulher do Mar" (A Woman of the Sea). Produzido por Charlie Chaplin e dirigido por Josef von Sternberg, o longa tornou-se uma das obras perdidas mais famosas da história do cinema. Nunca lançado comercialmente e posteriormente destruído, o filme acabou cercado por mistérios, especulações e relatos que alimentam seu status lendário até os dias de hoje.
Originalmente conhecido pelo título de trabalho "Gaivotas do Mar" (Sea Gulls), o filme foi concebido como um veículo para relançar a carreira de Edna Purviance, principal parceira de Chaplin durante os anos de seus curtas-metragens. A história acompanhava as irmãs Joan e Magdalen, filhas de um pescador da região de Monterey, na Califórnia. Quando um escritor vindo da cidade desperta o interesse das duas, Magdalen abandona seu noivo e parte com ele. Anos depois, ela retorna e tenta destruir o casamento da irmã, criando o conflito central da narrativa.
As filmagens se estenderam por cerca de seis meses, com cenas registradas tanto nos estúdios de Chaplin quanto no litoral de Monterey e Carmel. Impressionado pelo talento de Josef von Sternberg após assistir a "Os Caçadores da Salvação" (The Salvation Hunters), Chaplin decidiu confiar ao cineasta a direção do projeto. Curiosamente, este foi o único filme produzido por Chaplin no qual ele não atuou nem dirigiu, já que estava concentrado na complicada produção de "O Circo" (The Circus).
Apesar do empenho da equipe, Chaplin nunca aprovou o lançamento da obra. Uma exibição privada organizada por Sternberg recebeu elogios pela beleza visual, mas também críticas por sua narrativa considerada pouco envolvente. Somaram-se a isso a insatisfação de Chaplin com o resultado final e o desempenho de Edna Purviance, levando o produtor a arquivar definitivamente o filme. Em 1933, os negativos foram destruídos na presença de testemunhas para que a produção pudesse ser declarada como perda para fins fiscais, transformando "A Mulher do Mar" em um dos filmes perdidos mais célebres do cinema.
Durante décadas, acreditou-se que praticamente nada havia sobrevivido da produção. Entretanto, em 2005, mais de cinquenta fotografias inéditas dos bastidores foram descobertas entre os pertences de familiares de Edna Purviance. As imagens, juntamente com documentos de produção e listas de intertítulos preservadas, permitiram reconstruir parcialmente a aparência e a estrutura da obra, oferecendo aos pesquisadores um raro vislumbre daquele que permanece como um dos maiores enigmas da filmografia de Charlie Chaplin e de Josef von Sternberg.
FONTE
https://collider.com/charlie-chaplin-a-woman-of-the-sea/
Rodrigo Veninno Rodrigo Veninno é o autor do site Os Anos Perdidos, onde escreve sobre cinema mudo e clássico desde 2015. Entusiasta do cinema mudo e clássico, especialmente de filmes produzidos e dirigidos por mulheres, interessa-se também pela preservação e redescoberta de filmes perdidos. É autor dos livros "As Mulheres Pioneiras do Cinema" e "Viagem ao Cinema Mudo".


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