JOSÉ RODRIGUES CAJADO FILHO - O PRIMEIRO CINEASTA NEGRO DO BRASIL
Poucos nomes sintetizam de maneira tão clara as virtudes e os dilemas do cinema brasileiro do pós-guerra quanto José Rodrigues Cajado Filho. Nascido no Rio de Janeiro, em 1912, e falecido na mesma cidade em 1966, Cajado não foi apenas um profissional da indústria: foi o primeiro cineasta negro do Brasil, o diretor negro de filmografia mais extensa de sua geração e uma figura central da Atlântida Cinematográfica. Cenógrafo consagrado, roteirista prolífico, diretor controverso, artista múltiplo e, ao mesmo tempo, personagem submetido a preconceitos estruturais de sua época, sua trajetória é atravessada por reconhecimento artístico, hostilidade crítica e uma contribuição inapagável à história do cinema nacional.
Formado pela Escola de Belas Artes, Cajado iniciou sua carreira no teatro, realizando cenários para a Companhia Teatral Dulcina-Odilon e criando decorações para bailes de carnaval de clubes tradicionais do Rio de Janeiro. Em 1943, foi levado pelo produtor e diretor de arte Murilo Lopes para trabalhar na Atlântida Cinematográfica, onde construiu uma carreira sólida e multifacetada. Ao longo da vida profissional, participou de mais de 50 filmes, exercendo funções de diretor de arte, cenógrafo, roteirista, argumentista, assistente de direção, diretor de elenco e, posteriormente, diretor de longas-metragens. Colaborou com nomes centrais da chanchada como Moacyr Fenelon, José Carlos Burle, Watson Macedo e Carlos Manga, inserindo-se no núcleo criativo que moldou o cinema popular brasileiro das décadas de 1940 e 1950.
Como cenógrafo, Cajado conquistou respeito quase unânime da crítica especializada. Seu trabalho era descrito como versátil, inventivo e tecnicamente refinado, capaz de transitar entre registros estéticos muito distintos. Exemplo disso são a apoteótica ambientação baiana do final de “Poeira de Estrelas” (1949), com Déo Maia interpretando “Bahia com H”, os cenários neorrealistas de “Amei um Bicheiro” (1951), o ambiente urbano de “O Boca de Ouro” (1962) e a recriação de uma cidade americana de faroeste em “Matar ou Correr” (1953). Nesse campo, Cajado tornou-se referência, sendo constantemente elogiado por jornais e revistas da época como um dos mais sólidos cenógrafos do cinema brasileiro.
Paralelamente, construiu uma carreira intensa como roteirista, especialmente dentro da Atlântida. Entre seus roteiros mais conhecidos estão “Aí Vem o Barão” (1951), “Vamos com Calma” (1956), “Papai Fanfarrão” (1956), “Esse Milhão é Meu” (1958), “O Homem do Sputnik” (1959), “Cupim” (1959), “Pintando o Sete” (1959), “Os Dois Ladrões” (1960), “Os Apavorados” (1962) e “O Petróleo é Nosso” (1954). Seu talento na construção de ideias lhe rendeu inclusive o prêmio de Melhor Argumento no VII Festival de Brasília, reconhecimento que evidencia a força conceitual de sua escrita, ainda que sua transposição cinematográfica nem sempre obtivesse consenso.
Na direção, Cajado escreveu e dirigiu cinco longas-metragens: “Estou Aí?” (1949), “Todos por Um!” (1950), “O Falso Detetive” (1951), “O Espetáculo Continua” (1958) e “Aí Vem a Alegria” (1959). Os três primeiros foram concebidos como veículos para os comediantes Colé Santana e Celeste Aída. “O Espetáculo Continua”, lançado em 1958, tornou-se seu projeto mais autoral: Cajado acumulou as funções de diretor, argumentista, roteirista e cenógrafo, reunindo em cena nomes como Cyl Farney, Eliana, Dóris Monteiro e John Herbert, numa comédia leve e despretensiosa. No ano seguinte, dirigiu “Aí Vem a Alegria”, sua última experiência como diretor.
Se sua contribuição técnica e criativa era inquestionável, a recepção crítica de sua obra como diretor e roteirista revelou-se profundamente dividida. De acordo com o Diário de Pernambuco, em publicação de 1960, “Pintando o Sete” apresentava um problema recorrente em sua filmografia: Cajado possuía boas ideias, mas não conseguia desenvolvê-las plenamente no resultado final. O jornal observava que o filme tentava satirizar a arte moderna e o grafismo que a cerca por meio da figura de Oscarito como o pintor “Pincasso”, funcionando como entretenimento popular e sucesso comercial, mas deixando suas intenções estéticas apenas esboçadas na tela. Ainda segundo o mesmo periódico, embora inteligente, Cajado fracassava cinematograficamente ao organizar suas propostas narrativas, repetindo limitações já vistas em “O Homem do Sputnik”.
A recepção de “Aí Vem a Alegria” foi ainda mais severa. Conforme crítica publicada pelo Diário de Pernambuco em 1960, o filme, dirigido por Cajado — que também assinava a cenografia e o argumento — foi considerado tecnicamente e artisticamente imperfeito em praticamente todos os setores. O jornal afirmava que Cajado não dominava a linguagem cinematográfica, dirigia sem método e não oferecia aos atores a orientação necessária, comprometendo o desempenho geral do elenco, inclusive o de Sônia Mamede, então vista como uma grande esperança do cinema brasileiro.
A hostilidade crítica atingiu seu ápice no Jornal Carioca. Em 1950, o periódico classificou “Todos por Um” como uma “calamidade sem precedentes”, acusando a obra de incoerência narrativa e ironizando sua inspiração em Os Três Mosqueteiros. No ano seguinte, ao analisar “O Falso Detetive”, o mesmo jornal afirmou que Cajado havia dirigido um “horrível carnaval de horrores”, concluindo que tanto esse filme quanto “Todos por Um” demonstravam que não se deveria confiar a ele a direção de produções por muitos anos. A crítica atacava praticamente todos os aspectos da obra: fotografia sem expressão cinematográfica, trilha de Vicente Paiva desconectada da narrativa e ausência de qualquer esforço artístico perceptível.
Esse julgamento implacável coexistia, paradoxalmente, com o reconhecimento de sua importância estrutural dentro da Atlântida e com sua permanência contínua em projetos da companhia. A contradição entre o prestígio técnico, sobretudo como cenógrafo e argumentista, e a rejeição de parte da crítica à sua direção tornou-se uma marca de sua trajetória. Soma-se a isso a dimensão pessoal: negro e homossexual, Cajado foi vítima de preconceito, segundo relato de seu amigo e parceiro de trabalho Carlos Manga, circunstância que ajuda a compreender as tensões simbólicas e institucionais que atravessaram sua carreira.
José Rodrigues Cajado Filho morreu em 1966, deixando uma obra que, mais do que unanimidades ou fracassos isolados, revela as fraturas, os sonhos e os limites do próprio cinema brasileiro em sua fase de formação industrial. Seu legado permanece como documento artístico, social e histórico: o de um pioneiro que ajudou a construir a linguagem e a estrutura de produção do cinema nacional, mesmo quando o próprio meio não soube, ou não quis, compreender plenamente a complexidade de sua contribuição.
* Por falta de fotos do cineasta, foi utilizada uma ilustração para complementar o texto.

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