BETTE DAVIS X JOAN CRAWFORD - A MAIS LENDÁRIA RIVALIDADE DE HOLLYWOOD

Bette Davis e Joan Crawford foram duas das maiores estrelas de Hollywood e, durante décadas, seus nomes estiveram associados a uma das rivalidades mais conhecidas da história do cinema. A relação entre as duas, porém, não pode ser reduzida a uma simples antipatia pessoal. Havia entre elas diferenças de personalidade, disputas profissionais e circunstâncias próprias de uma indústria que frequentemente colocava suas atrizes umas contra as outras. A chamada “rivalidade” começou a ganhar forma ainda nos anos 1930, quando ambas consolidavam suas carreiras.

Um dos primeiros episódios apontados como origem da tensão ocorreu em 1933. Davis estava vivendo um momento importante de sua carreira com "Amante do Seu Marido" (Ex-Lady), seu primeiro filme a ter seu nome acima do título. Na mesma época, Joan Crawford anunciou seu divórcio de Douglas Fairbanks Jr., atraindo grande atenção da imprensa. A repercussão acabou ofuscando a divulgação do filme de Davis. Dois anos depois, outro acontecimento contribuiria para aumentar a distância entre as duas: durante as filmagens de "Perigosa" (Dangerous), Davis se apaixonou por Franchot Tone, que posteriormente se casaria com Crawford. Para Davis, esse episódio permaneceu como uma lembrança dolorosa por muitos anos.

A competição também se manifestou no campo profissional. Em diferentes momentos, Crawford assumiu papéis que haviam sido considerados para Davis. O exemplo mais famoso foi "Alma em Suplício" (Mildred Pierce), de 1945. Davis havia recusado o papel, que acabou ficando com Crawford e lhe proporcionou o Oscar de Melhor Atriz. A situação reforçou a percepção de que as duas estavam constantemente competindo pelo mesmo espaço. Ao mesmo tempo, ambas construíam trajetórias bastante diferentes: Davis era reconhecida principalmente por sua intensidade dramática e por personagens complexas, enquanto Crawford desenvolveu uma imagem de estrela extremamente associada ao glamour, à disciplina e à transformação pessoal.

Apesar da animosidade, houve tentativas de aproximação. Quando Crawford foi para a Warner Bros., em 1943, passou a trabalhar no mesmo estúdio que Davis e chegou a tentar estabelecer uma relação mais amistosa com a colega. As tentativas, entretanto, não prosperaram. Nos anos seguintes, a imprensa contribuiu para alimentar a imagem de duas mulheres permanentemente em conflito, enquanto declarações públicas de ambas ajudavam a manter a rivalidade no imaginário popular. Com o passar do tempo, entretanto, a disputa acabou se tornando também parte da própria mitologia de Hollywood.

Foi somente em 1962 que Bette Davis e Joan Crawford trabalharam juntas, em "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?" (What Ever Happened to Baby Jane?), dirigido por Robert Aldrich. O filme colocou as duas interpretando irmãs em conflito e se tornou um inesperado sucesso comercial. A produção também ficou marcada por relatos de desentendimentos entre as atrizes durante as filmagens, alguns deles transformados posteriormente em histórias difíceis de separar dos exageros e das lendas que cercaram a produção. Ainda assim, o resultado permanece como um dos trabalhos mais importantes da fase final das carreiras de ambas.

Mais de cinco décadas depois, a história ganhou uma nova interpretação na televisão com "Feud: Bette and Joan", primeira temporada da série antológica criada por Ryan Murphy e exibida pela FX em 2017. Com Susan Sarandon como Bette Davis e Jessica Lange como Joan Crawford, a produção procurou ir além da imagem de duas estrelas simplesmente dispostas a destruir uma à outra. A série apresentou as duas perspectivas e explorou também as pressões de uma indústria que oferecia cada vez menos oportunidades para atrizes mais velhas, além do sexismo e do etarismo presentes em Hollywood. Embora seja uma dramatização e tome algumas liberdades narrativas, "Feud: Bette and Joan" contribuiu para olhar para a história com maior complexidade e, sobretudo, para lembrar que por trás da famosa rivalidade existiam duas mulheres tentando preservar suas carreiras e sua identidade artística em um sistema que frequentemente as colocava em oposição.

A história de Bette Davis e Joan Crawford talvez seja mais interessante quando observada para além da ideia de uma simples “guerra” entre duas estrelas. As duas enfrentaram uma indústria que tinha enorme poder para determinar a carreira, a imagem e as oportunidades oferecidas às mulheres, especialmente à medida que envelheciam. Davis e Crawford responderam a esse sistema de maneiras diferentes, mas ambas conseguiram permanecer relevantes por décadas. No fim, mais do que uma rivalidade, suas trajetórias representam duas extraordinárias carreiras que acabaram inevitavelmente entrelaçadas na história de Hollywood.

Rodrigo Veninno

Rodrigo Veninno Rodrigo Veninno é o autor do site Os Anos Perdidos, onde escreve sobre cinema mudo e clássico desde 2015. Entusiasta do cinema mudo e clássico, especialmente de filmes produzidos e dirigidos por mulheres, interessa-se também pela preservação e redescoberta de filmes perdidos. É autor dos livros "As Mulheres Pioneiras do Cinema" e "Viagem ao Cinema Mudo".

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