CINEMATECA - CAMA E SOFÁ (1927) - UM OUSADO FILME MUDO SOVIÉTICO
Em "Cama e Sofá" (Tretya Meshchanskaya), de 1927, somos levados à Moscou da Nova Política Econômica, onde o diretor Abram Room constrói um retrato íntimo das tensões domésticas em um pequeno apartamento da 3ª Rua Meshchanskaya. Vladimir, tipógrafo recém-chegado, procura abrigo na casa do amigo de guerra Nikolai, um pedreiro que vive com a esposa Liuda. O sofá passa a ser sua cama, enquanto a rotina apertada revela uma convivência que logo se torna terreno fértil para conflitos silenciosos.
As dinâmicas entre os três se intensificam à medida que Vladimir demonstra gentileza e atenção para com Liuda, em contraste com o comportamento controlador de Nikolai. Pequenos gestos e objetos do cotidiano ganham peso dramático, revelando as frustrações acumuladas da vida doméstica e a forma como Liuda se vê reduzida a tarefas e expectativas que a sufocam.
Quando Nikolai parte temporariamente para o trabalho, Vladimir assume um papel mais íntimo ao lado de Liuda, e o triângulo amoroso se estabelece de maneira aberta e inesperada. A gravidez que surge desse arranjo torna incerta a paternidade e expõe a pressão que ambos os homens exercem sobre Liuda, especialmente no que diz respeito ao aborto — tema tratado de maneira direta e incomum para o cinema da época. A protagonista, contudo, tem a chance de escolher seu próprio caminho diante da situação que a cerca.
O filme surpreende por ter sido produzido na União Soviética dos anos 1920, em uma Rússia ainda marcada por valores tradicionais. Nesse contexto, a obra desafia expectativas ao tratar sem pudor temas como o aborto e a convivência de uma mulher com dois parceiros simultaneamente. Não se trata de poligamia formal, mas de um arranjo doméstico ousado, especialmente para seu tempo.
Em "Cama e Sofá" (Tretya Meshchanskaya), de 1927, somos levados à Moscou da Nova Política Econômica, onde o diretor Abram Room con...
A MORTE DE DRÁCULA (1921) - A PRIMEIRA APARIÇÃO DO PERSONAGEM NO CINEMA
"A Morte de Drácula" (Drakula halála), dirigido por Károly Lajthay e lançado em 1921, é uma das primeiras — se não a primeira — aparições cinematográficas de um vampiro chamado Drácula. Embora o filme não siga fielmente o romance de Bram Stoker, sua importância histórica no cinema de horror é inegável.
A produção teve cenas externas filmadas nos arredores de Viena e cenas de estúdio no Corvin Studio, em Budapeste. No roteiro, Lajthay contou com a colaboração de Mihály Kertész — que mais tarde ficaria famoso como Michael Curtiz, diretor clássico de Hollywood. A direção de fotografia ficou a cargo de Eduard Höesch e Lajos Gasser, nomes proeminentes da época.
A trama, baseada em uma novelização do roteiro, foge completamente da estrutura do romance de Stoker. A protagonista é uma jovem costureira chamada Mary Land, que visita seu pai em um asilo psiquiátrico. Lá, ela encontra um paciente que se apresenta como “Drakula” e afirma ser imortal. A narrativa se desenrola com sequestros, cerimônias misteriosas em um castelo e fugas dramáticas, tudo permeado por símbolos como o crucifixo.
No desfecho, Mary acorda no asilo sem clareza se tudo aconteceu de verdade ou se foi apenas um pesadelo. Drakula, por sua vez, desafia um interno a atirar nele para provar sua imortalidade — é atingido no coração e morre. Mary se reconcilia com seu noivo George, e um diário intitulado "Diary of My Immortal Life and Adventures", pertencente a Drakula, é encontrado — Mary insiste para que ele seja descartado.
O que torna "Drakula halála" ainda mais fascinante é que ele é, hoje, um filme perdido. Nenhuma cópia sobreviveu. Restaram apenas quatro fotografias promocionais e a novelização. Essa ausência física transforma o filme em um fantasma histórico, especialmente por ser anterior ao icônico "Nosferatu" (1922), o que o colocaria como a primeira obra vampírica do cinema.
Apesar de supostamente ter sido apresentado em Viena em 1921, não há registros confiáveis da época que confirmem a exibição. O primeiro documentado ocorreu em Budapeste, em abril de 1923. A ausência de material físico, somada às diferenças marcantes em relação ao romance de Stoker, mantém o filme no centro de discussões entre historiadores e cinéfilos. Para alguns, "Drakula halála" é apenas uma apropriação distante do mito de Drácula; para outros, representa um elo primordial — ainda que fragmentado — na construção da tradição vampiresca no cinema mudo.
"A Morte de Drácula" (Drakula halála), dirigido por Károly Lajthay e lançado em 1921, é uma das primeiras — se não a primeira — ...
NOVELAS ESQUECIDAS - NINA (1977)
"Nina", foi exibida entre 27 de junho de 1977 e 13 de janeiro de 1978, com um total de 142 capítulos no horário nobre das 22 h. Escrita por Walter George Durst, com roteiro final de Walter Avancini e direção de Fábio Sabag, a produção reuniu um elenco de grandes nomes da época, como Regina Duarte, Antônio Fagundes, Rosamaria Murtinho, Mário Lago e Isabela Garcia nos papéis centrais. Ambientada nos anos 1920, a novela misturou uma estética de época com debates sociais que ecoavam a própria década de sua produção, um encontro entre tradições conservadoras e os primeiros sinais de transformações culturais no Brasil da década de 1970.
A gênese de “Nina”, no entanto, está intimamente ligada à censura imposta pelo regime militar no Brasil. Originalmente, o autor Walter George Durst preparava outra trama, “Despedida de Casado”, como sucessora de “Saramandaia” no mesmo horário das 22 h. A produção dessa novela estava adiantada, com capítulos gravados e chamadas já no ar, quando, em 24 de dezembro de 1976, a Censura Federal vetou sua exibição sob a alegação de que o tema, a separação de casais, amor livre e conflitos geracionais, era “prejudicial à moral e aos bons costumes”. Com isso, a Globo precisou cancelar o projeto poucos dias antes da estreia prevista e buscar uma alternativa para a faixa nobre.
Diante do veto, a emissora optou por reprisar a novela “O Bem Amado” como um “tapa-buraco” na programação enquanto Durst escrevia às pressas uma nova trama que pudesse ocupar a faixa de “Despedida de Casado”. Assim nasceu “Nina”, que reaproveitou grande parte do elenco originalmente escalado para a novela censurada, incluindo Regina Duarte e Antônio Fagundes, fazendo dessa a primeira produção em que os dois contracenaram juntos. Essa substituição imposta pelos censores acabou por moldar a identidade final da obra, que, embora bem produzida, enfrentou dificuldades de audiência e críticas pela maneira como foi concebida em tempo reduzido.
No núcleo dramático de “Nina”, acompanhamos a jornada da personagem-título, uma professora progressista que desafia o rígido sistema de um colégio conservador ao lutar pelo direito de matrícula de uma aluna excluída por preconceito social. Ao confrontar o diretor da escola, Nina se torna símbolo de resistência diante de um ambiente tradicionalista que reprime ideias inovadoras. Ao mesmo tempo, a trama desenvolve um triângulo amoroso com o imigrante Bruno (Antônio Fagundes) e a antagonista Arlete (Rosamaria Murtinho), intensificando conflitos pessoais em meio ao pano de fundo social da década de 1920.
Apesar dos investimentos artísticos, de elenco e da produção cuidadosa, incluindo cenários externos gravados em locais como a Estação da Luz em São Paulo e bairros tradicionais do Rio de Janeiro, “Nina” acabou sendo prejudicada pela sombra da censura e por sua concepção apressada, resultando em uma recepção morna junto ao público.
"Nina", foi exibida entre 27 de junho de 1977 e 13 de janeiro de 1978, com um total de 142 capítulos no horário nobre das 22 h. Es...




















