A VERSÃO CENSURADA DE ROQUE SANTEIRO (1975)

 

“Roque Santeiro” foi uma das produções da teledramaturgia brasileira que tiveram sua trajetória interrompida antes mesmo de chegar ao público. Escrita por Dias Gomes e dirigida por Daniel Filho, a primeira versão da novela foi produzida pela Rede Globo e tinha estreia marcada para 27 de agosto de 1975, uma quarta-feira. A emissora já havia gravado dezenas de capítulos e divulgado chamadas anunciando a chegada da história à televisão, mas a censura proibiu sua exibição na véspera da estreia. O projeto, protagonizado por Francisco Cuoco, permaneceu inédito, transformando-se em um episódio marcante da história da televisão brasileira.

A trama se passava em Asa Branca, uma cidade fictícia do Nordeste cuja vida econômica e social girava em torno da memória de Roque Santeiro, um escultor de imagens religiosas que teria morrido ao enfrentar um grupo de cangaceiros liderado por Trovoada. Considerado herói pela população, Roque passa a ser objeto de devoção, e sua história atrai visitantes que contribuem para o crescimento da cidade. Entretanto, a imagem construída em torno de sua suposta morte escondia uma realidade capaz de abalar os interesses dos moradores mais poderosos: Roque não havia morrido e estava prestes a retornar a Asa Branca, colocando em risco os negócios sustentados pela lenda.

Entre os personagens envolvidos nessa história estavam Sinhozinho Malta, fazendeiro influente interpretado por Lima Duarte, e Porcina, vivida por Betty Faria, apresentada à população como viúva de Roque, embora nunca tivesse sido casada com ele. A situação também envolvia Mocinha, antiga namorada do protagonista, que decidira permanecer virgem depois de seu desaparecimento e ficara conhecida como viúva virgem. Florindo Abelha, o prefeito, Zé das Medalhas, que enriquecera comercializando objetos ligados ao herói, e o padre Honório também integravam o grupo de figuras cujos interesses estavam relacionados à permanência daquele mito. A história combinava conflitos amorosos, religiosidade popular e disputas em torno de uma reputação construída sobre uma mentira.

A origem da novela estava em “O Berço do Herói”, peça teatral escrita pelo próprio Dias Gomes e anteriormente proibida pela censura. A adaptação para a televisão preservava a questão central da obra: a construção de um herói e os interesses que podem se desenvolver em torno de sua imagem. Embora a produção televisiva tivesse recebido autorização inicial para ser exibida, a decisão foi revogada pouco antes da estreia. O episódio foi relacionado a uma conversa telefônica do autor que teria sido interceptada, na qual ele comentava a adaptação da peça para a televisão. As circunstâncias da proibição, entretanto, não permitem estabelecer com absoluta segurança um único motivo para a decisão.

O veto provocou uma mudança imediata na programação da Globo. Sem a novela prevista para o horário das oito, a emissora recorreu à reprise de “Selva de Pedra”, de Janete Clair, enquanto uma nova produção era preparada para ocupar a faixa. O trabalho resultou em “Pecado Capital”, que reuniu novamente Francisco Cuoco, Betty Faria e Lima Duarte. Parte da equipe e dos cenários também foi aproveitada, dando continuidade ao trabalho que já estava em andamento. A notícia do cancelamento foi comunicada ao público por Cid Moreira, durante o “Jornal Nacional”, em meio à repercussão da decisão que impediu a exibição da novela.

A história de “Roque Santeiro” só chegaria à televisão dez anos depois, em uma nova versão exibida em 1985, com José Wilker como Roque, Regina Duarte no papel de Porcina e Lima Duarte novamente como Sinhozinho Malta. A estrutura central da trama foi mantida, embora o elenco principal tenha sido renovado. A versão de 1975, por sua vez, permaneceu como uma produção que nunca teve sua estreia realizada. Seu percurso reúne a criação de Dias Gomes, uma história sobre a fabricação de mitos e os efeitos da censura sobre uma obra destinada à televisão brasileira.

FONTES
https://observatoriodatv.com.br/teledramaturgia/roque-santeiro-1975/
https://tvpediabrasil.fandom.com/pt-br/wiki/Roque_Santeiro_(1975)
https://www.uol.com.br/splash/noticias/2026/10/05/por-que-a-1-versao-de-roque-santeiro-foi-censurada-na-vespera-da-estreia.ghtm

Rodrigo Veninno

Rodrigo Veninno Rodrigo Veninno é o autor do site Os Anos Perdidos, onde escreve sobre cinema mudo e clássico desde 2015. Entusiasta do cinema mudo e clássico, especialmente de filmes produzidos e dirigidos por mulheres, interessa-se também pela preservação e redescoberta de filmes perdidos. É autor dos livros "As Mulheres Pioneiras do Cinema" e "Viagem ao Cinema Mudo".

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